Policia Federal, MP e mídia montaram circo em 2008 para prejudicar Garotinho
Policia Federal, MP e mídia montaram circo em 2008 para prejudicar Garotinho


Por Luis Filipe Melo


Tenho acompanhado todas as notícias da Operação Guilhotina e estranho que até agora não tenha sido veiculada uma única imagem, foto ou vídeo, do delegado Carlos Oliveira preso, ou nas dependências da Polícia Federal, ou sendo levado no camburão para Bangu 8, ou entrando no presídio. Nada. Nenhuma imagem, ao contrário do habitual nas operações da PF, onde os presos de destaque são sempre exibidos como troféus diante das câmeras.

Tudo muito estranho e olha que durante anos como repórter cansei de acompanhar operações policiais, diversas da PF e nunca vi nada parecido. A propósito dessa situação das imagens da Operação Guilhotina vale a pena, principalmente para os leitores que acompanham o blog há menos tempo, fazer um relato daquela incursão da Polícia Federal à casa de Garotinho, em 2008.


“No dia 29 de maio de 2008 pela manhã estava no escritório de Garotinho quando ele me ligou dizendo que a Polícia Federal estava seguindo para a sua casa, com um mandado de busca e apreensão. Perguntei-lhe como ele sabia e qual não foi meu espanto com a resposta. Os policiais federais, num “mico” histórico, tinham amanhecido na porta de um prédio no Flamengo, onde Garotinho morou logo depois de Rosinha deixar o governo, querendo entrar no antigo apartamento e o porteiro ligou avisando. Isso já mostra como foi tudo feito de forma açodada, a Polícia Federal nem sabia onde Garotinho morava. Foi a imprensa que informou o novo endereço em Laranjeiras. Mas por conta desse equívoco Garotinho telefonou para os advogados e estava aguardando a chegada da PF.

Seguindo sua orientação segui para lá, para podermos escrever o blog e manter as pessoas informadas da situação. Por volta das 10 horas, estava montado “o circo” na porta da casa de Garotinho, com mais de 100 repórteres, cinegrafistas e fotógrafos a postos. Vale aqui uma ressalva. Em todas as operações que acompanhei da Polícia Federal, a imprensa era convocada à superintendência da Praça Mauá e seguia de carro atrás do comboio policial rumo ao destino da incursão, mas nós nem éramos informados para onde estávamos indo. Só quando chegávamos descobríamos o alvo da operação. Sempre foi assim. Menos na casa de Garotinho, onde a imprensa foi avisada de tudo com antecedência e estava de prontidão preparada para “o show”.

A chegada da Polícia Federal foi “apoteótica”, a duas quadras da casa ligaram todas as sirenes para alertar os repórteres. Bem, se estivessem atrás de alguém que estivesse devendo teria fugido pelos fundos da casa, que dão na mata, tranquilamente. Nunca vi nada semelhante.

Quando a Polícia Federal entrou na casa estranhei logo de cara, vários agentes portando fuzis empunhados com o cano apontado pra frente e o dedo no protetor do gatilho. Já vi várias operações até de prisão de pessoas, o que não era o caso, mas onde a polícia sabendo que o alvo do mandado não oferecia risco bateu na porta, sem os agentes precisarem sacar as pistolas, mostrou o mandado e entrou. Ou alguém pode imaginar os policiais federais sendo recebidos à bala? Estava na cara que tudo fazia parte do script do show montado para atingir Garotinho.

Os policiais queriam achar “dinheiro, dólares, armas de fogo”, afinal, lembrem, acusavam Garotinho de ser “chefe de quadrilha armada”, embora como frisou o MP, ele “não tenha usufruído de ganho pessoal ou benefício financeiro”. Só mesmo no Brasil! Reviraram tudo até as gavetas de roupa das crianças. A ação foi comandada por dois delegados, um homem e uma mulher cujos nomes não me recordo. Para vocês terem idéia do clima de intimidação, da pressão, a delegada, que na época era da Delegacia Ambiental da PF, sempre autoritária, chegou a apreender da minha agenda pessoal, uma foto dos meus sobrinhos, duas crianças na piscina e numerou como prova. Quando aleguei que aquilo era meu, a delegada assim mesmo não queria me devolver as fotos, e arrogante, debochou dizendo que estavam na casa, portanto ela podia apreender. Foi preciso a interferência dos advogados de Garotinho que mostraram que o “objeto” do Mandado de Busca e Apreensão não incluía bens de terceiros presentes na casa. O outro delegado da operação, mais sereno, concordou com a devolução das fotos. Sentiram o clima amistoso?

Bem, no final, não acharam nem dólares, nem reais, nem fuzis, nem pistolas, mas não podiam sair com as mãos abanando, afinal, “o circo” montado na porta da casa esperava ansioso a hora do “gran finale”, como os leões aguardavam suas presas no circo romano. Levaram contas de água e luz, um computador das crianças, uma bíblia, uma agenda de telefones que chegou a ser balançada por um agente dentro da casa como se tivesse encontrado uma prova de alguma coisa, mas era a agenda de telefones do motorista da família, que coitado ficava pedindo a agenda porque ali tinha telefones importantes para ele, mas a PF não quis devolver.

Essas, digamos “provas” de nada, digo provas porque a Polícia Federal numerou tudo como tal, foram cuidadosamente colocadas em malotes tipo do correio, dando a impressão que tinham muita coisa dentro, que os agentes federais fizeram questão de exibir para a imprensa na porta de casa.

Enfim, quando o “show” terminou e o “circo” foi desmontado na porta da casa de Garotinho, os filhos mais novos chegaram, estavam na casa de amigos da família para não passarem mais constrangimento. Me recordo bem que depois de assistirmos o Jornal Nacional, onde foi feito um “carnaval” contra Garotinho, ele e Rosinha chamaram todos os filhos para uma conversa de família. Rosinha com os olhos marejados, Garotinho com a indignação estampada no rosto, mas mantendo a tranqüilidade, precisavam explicar tudo aos filhos.

Era chegada a hora da partida, dei um abraço em Rosinha, outro forte em Garotinho, mas me faltaram palavras, estava emocionado e revoltado com tudo o que vi. Desci a escada da casa com um pensamento na cabeça: “Que país é este?”. Fiquei imaginando o sofrimento dos filhos e a dor de Garotinho e de Rosinha, por precisarem dizer para eles que são honestos, que tudo não passava de uma perseguição, de uma jogada política. Quem tem filhos pode imaginar.

Bem, como todos estão vendo hoje, nunca encontraram nada contra Garotinho, mas como poderosos não gostam dele, armaram tudo isso e muito mais. Algumas pessoas que não gostam de Garotinho bateram palmas na época. Esquecem que amanhã podem ter um problema até com um vizinho, que pode até não ser, mas ter amigos poderosos, e podem ser acusados de alguma leviandade e um dia ter a polícia dentro de casa, mesmo sem terem feito nada de errado. E depois vão ter que sentar com os filhos e explicar que são inocentes. É o velho ditado: “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Mas está na hora das pessoas acordarem e perceberem que está tudo errado. Os dois exemplos de comportamento da Polícia Federal só servem para evidenciar, expor claramente a perseguição política a Garotinho. É bom que algumas pessoas vejam isso."




Em tempo: Reproduzo abaixo o testemunho do Fernando Peregrino, que também estava lá nesse dia fatídico e que acrescenta colocações importantes, em cima do relato que fiz.

"Relato dramático e oportuno o seu Filipe. No dia, estava eu na COPPE quando soube dessa pirotecnia engendrada por Cabral, Beltrame e Tasso Genro. Não há dúvida que queriam destruir de vez com o Garotinho e nosso grupo político. Sim, porque se essa operação de desconstrui-lo fosse vitoriosa, hoje nao haveria mais ninguem na oposição ao sistema que sequestrou instituições caras do regime republicano, a Justiça e o Parlamento. Mas como na época da ditadura das armas ninguem imaginava que venceriamos, ta aí! Um pequeno grupo de estudantes no inicio, trabalhadores depois e classe média a seguir, derrubam exercitos inteiros e o proprio sistema. A presidente Dilma sabe o que é a perseguição de uma policia política. Lembro-me que no dia liguei para minha esposa Edir para irmos visitar os amigos Garotinho e Rosinha. Ela me disse que Rosinha tinha pedido para nao ir porque havia muitos fotógrafos na porta da casa deles. Ora, ora. Que fotografassem. Fui. Encontrei Garotinho sereno e Rosinha em lágrimas. Abracei-os. Assisti junto com a família deles o Jornal Nacional, o mesmo de ontem que nao deu uma palavra sobre o caso da Policia Criminosa do Cabral. O procurador dizendo: - Contra o Garotinho não há indicio que tenha cometido algum crime.
Vergonha e certeza que isso um dia vai ser desvendado através da abertura das entranhas da própria Policia Federal, e assim sabermos quem dela protelou a Operaçao Guilhotina para depois das eleições? Quem avisou ao Carlos Alberto Oliveira para sair da Policia Civil e se disfarçar na Secretaria da Prefeitura? Quem armou a condenaçao posterior do Garotinho por um Juiz, irmão de um assessor do Comandante da PM do Cabral?
Quantas perguntas ainda sem respostas! Parabéns pelo relato Filipe, o reporter do "front"!
Fernando Peregrino"


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