O país chama a si mesmo para olhar no espelho, pois algo ronda corações e mentes.
A marcha “Acorda Brasil” não é apenas um ajuntamento de corpos nas ruas; é um sintoma, de exaustão moral, de cansaço institucional e de uma indignação que já não cabe nos discursos. Quando o povo marcha, é porque algo essencial falhou.
Em meio a escândalos que já não chocam pela novidade, mas pela repetição. As fraudes no INSS atingem justamente os mais vulneráveis — aposentados e trabalhadores que confiaram uma vida inteira ao Estado. O Banco Master expõe a promiscuidade entre poder financeiro e o poder político. A venda de sentenças, talvez a mais grave, corrói o núcleo do pacto civilizatório: a ideia de que a Justiça deve ser cega, e não negociável.
Não se trata apenas de corrupção financeira, mas de corrupção simbólica. Quando decisões judiciais viram mercadoria e instituições parecem existir mais para se proteger do cidadão do que para servi-lo, o que entra em colapso é a confiança — esse cimento invisível que sustenta uma sociedade.
A marcha de hoje se inscreve numa tradição humana mais ampla. As caminhadas de Gandhi, quando passos silenciosos enfrentaram um império inteiro. As marchas lideradas por Martin Luther King Jr., que transformaram ruas em tribunais morais contra a injustiça racial. Remete, em escala ainda mais arquetípica, à travessia de Moisés, quando caminhar significava romper com a escravidão e afirmar que nenhum poder é absoluto.
A história ensina algo incômodo: grandes mudanças raramente começam nos palácios. Começam na recusa em aceitar o “sempre foi assim”. Nenhuma dessas marchas foi perfeita ou isenta de conflitos, mas todas romperam o silêncio conveniente.
“Acorda Brasil” não é um slogan vazio; é um diagnóstico. O país não dorme por ignorância, mas por ter normalizado o absurdo. Marchar hoje é um gesto de memória e de aviso: direitos nunca foram concessões espontâneas; aviso de que a paciência cívica não é infinita.
A história segue aberta. E, mais uma vez, começa a ser escrita com passos, pequenos e desencontrados, como foram os primeiros passos de todas as caminhadas, quando o povo entendeu que era preciso marchar.