Rafael Faria, advogado que deixou a defesa de Garotinho
Rafael Faria, advogado que deixou a defesa de Garotinho

Relembrem o artigo e a gravação (logo abaixo) do advogado Rafael Faria, que deixou a defesa de Garotinho no início de agosto, alegando não ter condições de realizar o seu trabalho diante das decisões tomadas pelo juiz de Campos.

"Dar comida aos que precisam já foi crime, você sabia?"

A famigerada operação chequinho possui uma íntima ligação com uma das causas mais tristes da humanidade.

Juiz parcial, impossibilidade de defesa, nulidades aberrantes e tantos outros pontos negativos foram na verdade o maior reconhecimento da fraqueza da humanidade. Que não é de hoje que julga aquele que a protege. Afinal, por quais motivos Jesus Cristo foi levado ao calvário?

Minha sincera crítica ao povo campista, pois assiste de certa maneira calado ao golpe político que sofre o Ex-Governador Garotinho. Talvez essa inércia esteja intimamente ligada ao comportamento humano. Pedro não negou Jesus?

Dito isto, gostaria de deixar claro que, a princípio, sempre sou contrário à pessoalização dos embates públicos, porque entendo que isto acaba por esconder numa cortina de fumaça a relevância sócio-política das matérias que constituem o seu verdadeiro objeto.

Como Pilatos, dirigir nossos esforços a criticar sua autoridade - como ele fez (faz), em direção aos defensores - só se prestaria a desviar o debate daquilo que lhe é essencial: chamar a atenção da sociedade para a banalização dos direitos do Réu, o que, afinal, é tudo o que se pretende. Além, é claro, de tornar o referido Pilatos numa vítima. Um mártir, colocando-o numa posição de destaque perante aos seus.

Deixemos ele, portanto, condenado ao ostracismo que merece! Não caiamos na tosca arapuca de conferir-lhe um protagonismo do qual não é digno, pois debater com a ignorância significa nos desviarmos. Só para ilustrar a minha opinião, lembro-me que nenhuma obra de arte retrata melhor a ignorância do que a pintura exibida no Louvre, na qual Voltaire, um dos pais do Iluminismo, se debate com um burro que escouceia. Trata-se da luz a contender com a escuridão.

Sigamos em frente na luta em defesa da Constituição, da cidadania, da justiça social, da ordem jurídica e dos direitos humanos. Esqueçamos estes genuínos “míopes do direito”, açodados por poder e seus escusos talentos acusatórios, pois a história, certamente, haverá de esquecê-los. Exemplo disso é que todos se lembram de Sócrates, mas ninguém se lembra do nome do seu carrasco.

Mas a história não recompensará os omissos.

Dante Alighieri, em A Divina Comédia, destaca que os lugares mais sombrios do inferno estão reservados àqueles que se mantiveram neutros em tempos de crise moral.

O primeiro a receber Jesus após a prisão foi Anás, iniciando torturas físicas e psicológicas, além de duas graves ilegalidades, primeiro porque Anás não era mais sumo sacerdote e não tinha nenhuma autoridade para interrogá-Lo e, segundo, porque Jesus deveria ter sido conduzido para o Sinédrio, lugar apropriado para o interrogatório.

Em seguida O levaram à presença de Pilatos, que verificando tais aberrações tentou enviar Jesus para ser julgado por Herodes, ao ouvir que Jesus era da Galiléia, alegando incompetência, pois para Pilatos não havia motivos para apenar o réu e disse: “Castigá-lo-ei, pois, e soltá-lo-ei.” Ou seja, o réu não tinha culpa, porém seria torturado e liberado. Todavia, tal iniciativa não foi suficiente, pois as autoridades queriam a morte de Jesus. Pilatos então tentou a soltura de Jesus lembrando-se da anistia de Páscoa, onde um prisioneiro poderia ser solto, porém surpreendentemente o povo que lá se encontrava exigiu que o perdão fosse dado a um notório criminoso chamado Barrabás.

*Jesus foi preso sem culpa, acusado sem indícios, julgado sem testemunhas legais, apenado com veredicto errado e, por fim, entregue à mercê da boa vontade de um juiz, no caso Pilatos, covarde, parcial e inepto para o exercício da magistratura.*

Injusta a morte do filho de Deus, mas o consolo vem do próprio Jesus, que nos diz: “Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.” (Mt. 26:28) Não estamos tão distantes do tempo de Jesus, estamos?

Dar comida aos pobres é crime!

*Rafael Faria,
Advogado
Rio de Janeiro 05 de agosto de 2017




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